
RESGATE
Resgate os pés descalços,
o rasgadinho da bermuda,
o "bigodinho" do leite
e o pneu furado.
Resgate
Resgate
Regaste a ficha do orelhão
o aluguel do VHS
e a vitrola da vó.
Resgate o mínimo possível,
livre-me das máximas chances
dos anúncios em avalanches,
da "chance de minha vida"...
Resgate-me dos especialistas
de cada quarteirão,
dos banners perturbando a visão;
só me recoste numa sombra,
deixe-me respirar!
Resgate-me das insígnias das tribos,
das marcas de um tempo
que parece a união de todos...
O ferro abrasador me caça
sob o rótulo de um salário, um estudo, uma religião ou uma identidade musical.
Assim, resgate-me desses proponentes,
desejosos por serem meus senhores,
minha vida, minha essência.
Confesso e assumo,
o caminho da associação é inevitável.
Mas permita-me pertencer
essencialmente ao "ser",
cuja minha existência deleite-se no caminho que sigo.
A dinâmica dos seres humanos
é bipartida: incompreensível e estupidamente simples.
Valho-me de que?
Muitas perguntas não precisam de todas as respostas.
Quero sujar minhas mãos na terra,
enfiar meus pés na lama,
me diluir na chuva
e evaporar junto às nuvens.
Sim, eu quero enterrar-me junto à semente
saudar a todos com minhas novas folhas!
Enquanto a primavera não chega
sigo o que entendo ser o ciclo
e achego-me ao inverno
ao habitável mundo de uma pessoa,
com os "princípios maiores" tatuados no meu coração.
Resgate-te das introspecções desnecessárias,
de devaneios que vagueiam
e revista-me da presença da vida.
Deus, livra-me do caos de um só
e do tumulto de todos,
dê-me a medida do moderado!
(Gabriel Monteiro)
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