sexta-feira, 26 de julho de 2024

IGREJA




IGREJA


 Num ponto distante

eu vi uma árvore.

Tinha folhas verdes,

tão brilhantes, lúcidas, fulgentes...


Dentre tanta gente

eu vi uma gente...

Considerei as duas porções

avistadas:

uma é clara, a multidão;

a outra, escondida, umas pequeninas formigas.



Um mistério queria descobrir...

Eu seguia adiante

e como mochileiro descalço

peregrinava neste intento...


Passei por muitos caminhos:

desci a estação de ônibus,

provoquei meus ouvidos

atravessando uma movimentada rodovia,

algumas pontes desusadas pisei

e numa dessas andadas

um espinho cravou minhas solas de carne...


Ali,, me recordei dos pobres,

dos sofridos e com isto

houve um grito, um alarido!

Foi minha mente (eu pensei)


O que será isto?

Só um pensamento, um vento...


Algumas horas passam

e resvalam as folhas o meu rosto.

Sinto a dormência do meu braço

sob o peso do meu corpo;

foi o peso da soneca estendida.


Ouço compassos do meio de uma partitura.

Eles parecem acobertados pelos calafrios que sinto

por estar nesta montanha agora.

Mas ainda o sonar do flautista é perceptível,

a projeção cerebral é real,

seria isto o místico?


Agora tenho por companheira

a clave de sol na minha mente.

Minhas pisadas viraram mercúrio

e passo a pesar 300 kilos,

tudo é áspero e custoso agora.

Minha balança estouraria

com minhas falhas e crimes

sendo contados agora!


O único acalento que sinto

é a lembrança do café preto de dona Nia,

mulher preta e boa,

e da simples toalha de mesa bege e vermelha

com detalhes floridos de época

como pano de fundo da bebida quente!


O arrepio que sinto gela a minha pele,

um prenúncio para a minha alma...


A lama   seca agora está no meio de minha canela;

pediria para o gênio da lâmpada

um galão de água...

Mas ele não existe,

sigamos sofrendo.


Após o distanciamento do rio Corvina,

eu rumei na linha dos 4 dias

e minhas reservas acabaram...

Agora é sensível o inchaço dos pisantes,

a latência das colunas e a ardência

dos ombros.

Onde estou? Não saber. Será o cerrado brasileiro?

Ou a savana africana?

A desidratação começou um diálogo comigo

e, agora, por enquanto, 

ainda distingo o real da miragem.

Mas se minha situação não melhorar,

temo pela minha sanidade...


De cabeça erguida é a minha mente,

de cabeça abaixada é a minha aparência.

É como estou agora;

passos curtos e rápidos,

joelhos trôpegos, quase desmontando

e postura em curvatura...

A exaustão gerou uma corcunda temporária

e a sede um culto à beira da ilusão...

Em meio seguindo seguido

meus sentidos parecem aguçados, e,

contemplando as fissuras do chão seco

um brilho fatia rapidamente meu rosto!

Só levanto as pupilas

e miro uma bola lustrosa,

objeto não compatível com o cenário em que estou...

Tudo escureceu!!!


...


É noite.

Acordo estatelado sob meio colchão,

uma espuma mole que mede até minha cintura.

Minhas pernas estão de fora, esticadas,

apoiadas por meus pés,

cujos dedos apontam para o teto da

caverna em que estou...

Sinto o desconforto repugnante

causado por uma goteira que alveja

minha coxa esquerda!

Meu rosto está cheio de micro-gotículas 

causadas pelo ricochetear do impacto de outra goteira que trabalha

ao lado direito de minha fronte.


Por algum motivo,

ainda estou vivo.

Sinto-me extenuado e fatigado,

em extremo.

Minhas costas encontraram uma companhia

e minhas pernas a cobertura de um 

fino cobertor vermelho de lã;

parece-me uma cor sugestiva de meus pecados!

O jogo parece virar lentamente

porque agora tenho meus pés quentes

junto à sinfonia dos estalos do fogo

da frente.

As canelas quentinhas seguem a mesma história...

Meus joelhos são o divisor de águas

 entre um mundo esquentado e afetuoso

e o mundo desértico, gélido e intolerante!

Acima deles, tudo é frio.

Parece que o gelado brota da goteira 

que persegue a coxa esquerda

e flui para todos os pólos acima de meus joelhos.

A singela manta carmesim

esmerou-se em seu fim,

mas não conseguiu;

uma de suas pontas estava

também hidratada pela gota infeliz!

...

Sinto cheiro de carne!

Meu instinto de sobrevivência

me salta dos infortúnios para

receber a alvíssara que pressinto,

o presente que imagino!

Em milissegundos

meu cotovelo direito açoita

brutalmente

um cantil de água sem tampa...

Azar pela metade de água desperdiçada,

sorte por conseguir salvar a outra metade.

Literalmente e metaforicamente

estou com a metade do copo cheio

e estou com a metade do copo vazio.


Me levanto para comer a carne que

está nas brasas

e me recompor no calor do fogaréu.

Novamente me lembro de minha mãe

e do "pretinho" da preta Nia...

Minhas lembranças ensaiam a dança do calor

junto ao lumiar das luzes desta caverna.


Mas quem teria me resgatado?

E porque não me levaram para a civilização?

Porque me deixaram aqui?

Ok! Me salvaram, mas podiam

 fazer um pouco mais, né?


Deve haver um sentido em tudo

isso...

Junto destas perguntas me 

questiono se esta jornada valeu a

pena...

De todo modo, cá estou e não há

como voltar.

É meu dever continuar...

Continuo comendo (carne de coiote ou

gazela do deserto, não sei ao certo),

bebo água

e posiciono estrategicamente

o cantil vazio na goteira que

importunou a minha coxa...


Assim volto a dormir...


Cá estou.

Após o sono, ainda estou neste

cenário cavernoso.

Mas agora, sentado,

de pernas cruzadas e imóvel.

Olhando para o nada,

considerando se saio da caverna

e admirando as ondulações

no cenário seco e rupestre,

causadas pelo sol a pino...

Aqui ainda está fresco.

Lá fora, tudo é quente.

Decido ficar aqui,

ainda não comi toda a carne

e a chata goteira ainda abençoa.

Sinto solidão e choro!

Choro muito e grito!

Sinto um misto de gratidão e infelicidade,

quase como quando quando vi que estava

envolvido com parte do cobertor

molhado pela goteira...

Após o desespero,

algum tempo passou;

não sei se minutos

ou horas...

E fico paquerando um cacto anão,

pequenino, mas um poderoso das secas!

É a segunda vez que percebo sua

presença;

o giro de sua sombra

profetiza o fim do dia que está chegando

e o estômago que já está falando...


Algo se movimenta no nada,

logo toma corpo...

As luzes que ainda sobram do céu

conseguem apontar o que

vislumbro...

De farol baixo,

se avizinha um veículo...

parece uma Pajero antiga e...

vermelha! Não é possível!

De novo essa cor...


Um casal me visita.

A mulher, cabelo loiro escuro, magra,

pele bronze e seca.

O homem,

aparência indígena, cor morena, meio gordinho

vestido com a camisa do Guarani,

time de futebol.

Eles me acolhem.

Eu entro no carro e rumo

para não sei onde.

Inicialmente assustados comigo,

logo percebem que não sou um salteador

e suas fisionomias suavizam para rostos amigáveis.

Falam uma língua que nunca ouvi na vida.

Só não consigo entender porque

um camarada com a camisa do Guarani não fala o português?

Perguntas...


Durmo novamente no banco traseiro...


Acordo com um bater nas costas masculino,

e a risada de maior felicidade que alguém poderia ouvir.

Abro parcialmente um dos olhos

e com vista um pouco embaçada,

olho uma contrução de tijolos de barro,

muito singela, as pessoas em seu entorno parecem estar felizes...

Acho que dormi em alguma moradia por muitas horas,

mas de tanta exaustão não percebi que me colocaram novamente neste carro vermelho.


Parece o mesmo horário de quando o casal me resgatou da caverna.

O dia seguinte, 24 horas.

O casal misterioso estava lá.

Mas eles eram conhecidos entre si,

O indivíduo enigmático e anônimo era eu,

tanto pra eles quanto para os outros.


Desço do carro 

e vou para a casinha de barro.

Que casinha é essa???


(Gabriel Monteiro) – (escrito em 07/01/2023)





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