IGREJA
Num ponto distante
eu vi uma árvore.
Tinha folhas verdes,
tão brilhantes, lúcidas, fulgentes...
Dentre tanta gente
eu vi uma gente...
Considerei as duas porções
avistadas:
uma é clara, a multidão;
a outra, escondida, umas pequeninas formigas.
Um mistério queria descobrir...
Eu seguia adiante
e como mochileiro descalço
peregrinava neste intento...
Passei por muitos caminhos:
desci a estação de ônibus,
provoquei meus ouvidos
atravessando uma movimentada rodovia,
algumas pontes desusadas pisei
e numa dessas andadas
um espinho cravou minhas solas de carne...
Ali,, me recordei dos pobres,
dos sofridos e com isto
houve um grito, um alarido!
Foi minha mente (eu pensei)
O que será isto?
Só um pensamento, um vento...
Algumas horas passam
e resvalam as folhas o meu rosto.
Sinto a dormência do meu braço
sob o peso do meu corpo;
foi o peso da soneca estendida.
Ouço compassos do meio de uma partitura.
Eles parecem acobertados pelos calafrios que sinto
por estar nesta montanha agora.
Mas ainda o sonar do flautista é perceptível,
a projeção cerebral é real,
seria isto o místico?
Agora tenho por companheira
a clave de sol na minha mente.
Minhas pisadas viraram mercúrio
e passo a pesar 300 kilos,
tudo é áspero e custoso agora.
Minha balança estouraria
com minhas falhas e crimes
sendo contados agora!
O único acalento que sinto
é a lembrança do café preto de dona Nia,
mulher preta e boa,
e da simples toalha de mesa bege e vermelha
com detalhes floridos de época
como pano de fundo da bebida quente!
O arrepio que sinto gela a minha pele,
um prenúncio para a minha alma...
A lama seca agora está no meio de minha canela;
pediria para o gênio da lâmpada
um galão de água...
Mas ele não existe,
sigamos sofrendo.
Após o distanciamento do rio Corvina,
eu rumei na linha dos 4 dias
e minhas reservas acabaram...
Agora é sensível o inchaço dos pisantes,
a latência das colunas e a ardência
dos ombros.
Onde estou? Não saber. Será o cerrado brasileiro?
Ou a savana africana?
A desidratação começou um diálogo comigo
e, agora, por enquanto,
ainda distingo o real da miragem.
Mas se minha situação não melhorar,
temo pela minha sanidade...
De cabeça erguida é a minha mente,
de cabeça abaixada é a minha aparência.
É como estou agora;
passos curtos e rápidos,
joelhos trôpegos, quase desmontando
e postura em curvatura...
A exaustão gerou uma corcunda temporária
e a sede um culto à beira da ilusão...
Em meio seguindo seguido
meus sentidos parecem aguçados, e,
contemplando as fissuras do chão seco
um brilho fatia rapidamente meu rosto!
Só levanto as pupilas
e miro uma bola lustrosa,
objeto não compatível com o cenário em que estou...
Tudo escureceu!!!
...
É noite.
Acordo estatelado sob meio colchão,
uma espuma mole que mede até minha cintura.
Minhas pernas estão de fora, esticadas,
apoiadas por meus pés,
cujos dedos apontam para o teto da
caverna em que estou...
Sinto o desconforto repugnante
causado por uma goteira que alveja
minha coxa esquerda!
Meu rosto está cheio de micro-gotículas
causadas pelo ricochetear do impacto de outra goteira que trabalha
ao lado direito de minha fronte.
Por algum motivo,
ainda estou vivo.
Sinto-me extenuado e fatigado,
em extremo.
Minhas costas encontraram uma companhia
e minhas pernas a cobertura de um
fino cobertor vermelho de lã;
parece-me uma cor sugestiva de meus pecados!
O jogo parece virar lentamente
porque agora tenho meus pés quentes
junto à sinfonia dos estalos do fogo
da frente.
As canelas quentinhas seguem a mesma história...
Meus joelhos são o divisor de águas
entre um mundo esquentado e afetuoso
e o mundo desértico, gélido e intolerante!
Acima deles, tudo é frio.
Parece que o gelado brota da goteira
que persegue a coxa esquerda
e flui para todos os pólos acima de meus joelhos.
A singela manta carmesim
esmerou-se em seu fim,
mas não conseguiu;
uma de suas pontas estava
também hidratada pela gota infeliz!
...
Sinto cheiro de carne!
Meu instinto de sobrevivência
me salta dos infortúnios para
receber a alvíssara que pressinto,
o presente que imagino!
Em milissegundos
meu cotovelo direito açoita
brutalmente
um cantil de água sem tampa...
Azar pela metade de água desperdiçada,
sorte por conseguir salvar a outra metade.
Literalmente e metaforicamente
estou com a metade do copo cheio
e estou com a metade do copo vazio.
Me levanto para comer a carne que
está nas brasas
e me recompor no calor do fogaréu.
Novamente me lembro de minha mãe
e do "pretinho" da preta Nia...
Minhas lembranças ensaiam a dança do calor
junto ao lumiar das luzes desta caverna.
Mas quem teria me resgatado?
E porque não me levaram para a civilização?
Porque me deixaram aqui?
Ok! Me salvaram, mas podiam
fazer um pouco mais, né?
Deve haver um sentido em tudo
isso...
Junto destas perguntas me
questiono se esta jornada valeu a
pena...
De todo modo, cá estou e não há
como voltar.
É meu dever continuar...
Continuo comendo (carne de coiote ou
gazela do deserto, não sei ao certo),
bebo água
e posiciono estrategicamente
o cantil vazio na goteira que
importunou a minha coxa...
Assim volto a dormir...
Cá estou.
Após o sono, ainda estou neste
cenário cavernoso.
Mas agora, sentado,
de pernas cruzadas e imóvel.
Olhando para o nada,
considerando se saio da caverna
e admirando as ondulações
no cenário seco e rupestre,
causadas pelo sol a pino...
Aqui ainda está fresco.
Lá fora, tudo é quente.
Decido ficar aqui,
ainda não comi toda a carne
e a chata goteira ainda abençoa.
Sinto solidão e choro!
Choro muito e grito!
Sinto um misto de gratidão e infelicidade,
quase como quando quando vi que estava
envolvido com parte do cobertor
molhado pela goteira...
Após o desespero,
algum tempo passou;
não sei se minutos
ou horas...
E fico paquerando um cacto anão,
pequenino, mas um poderoso das secas!
É a segunda vez que percebo sua
presença;
o giro de sua sombra
profetiza o fim do dia que está chegando
e o estômago que já está falando...
Algo se movimenta no nada,
logo toma corpo...
As luzes que ainda sobram do céu
conseguem apontar o que
vislumbro...
De farol baixo,
se avizinha um veículo...
parece uma Pajero antiga e...
vermelha! Não é possível!
De novo essa cor...
Um casal me visita.
A mulher, cabelo loiro escuro, magra,
pele bronze e seca.
O homem,
aparência indígena, cor morena, meio gordinho
vestido com a camisa do Guarani,
time de futebol.
Eles me acolhem.
Eu entro no carro e rumo
para não sei onde.
Inicialmente assustados comigo,
logo percebem que não sou um salteador
e suas fisionomias suavizam para rostos amigáveis.
Falam uma língua que nunca ouvi na vida.
Só não consigo entender porque
um camarada com a camisa do Guarani não fala o português?
Perguntas...
Durmo novamente no banco traseiro...
Acordo com um bater nas costas masculino,
e a risada de maior felicidade que alguém poderia ouvir.
Abro parcialmente um dos olhos
e com vista um pouco embaçada,
olho uma contrução de tijolos de barro,
muito singela, as pessoas em seu entorno parecem estar felizes...
Acho que dormi em alguma moradia por muitas horas,
mas de tanta exaustão não percebi que me colocaram novamente neste carro vermelho.
Parece o mesmo horário de quando o casal me resgatou da caverna.
O dia seguinte, 24 horas.
O casal misterioso estava lá.
Mas eles eram conhecidos entre si,
O indivíduo enigmático e anônimo era eu,
tanto pra eles quanto para os outros.
Desço do carro
e vou para a casinha de barro.
Que casinha é essa???
(Gabriel Monteiro) – (escrito em 07/01/2023)

Nenhum comentário:
Postar um comentário